Hoje
é Dia dos Namorados e estive pensando em homenagear os
casais de alguma forma. Claro que eu não consegui, pois apesar de ser uma
manteiga derretida lendo os lindos e meigos romances, eu sou daquelas que não
acreditam realmente no amor e tenho algumas cicatrizes profundas sobre o tema.
Estive pensando em escrever uma crônica sobre isso,
mas preferi disponibilizar para vocês, na estreia da nossa coluna pessoal, o “Divagando...” um conto que escrevi há
cerca de 7 meses. Muitos acham esse conto bem legal, então confiando nessas
pessoas decidi publicar aqui no Diário de
uma Leitora Compulsiva.
Eu o publiquei também no blog BookShelf da fofa
Milly Pellegrini, onde ela posta diversos contos e textos fantásticos!! Super
recomendo o espaço dela!! =)
Alice
se Foi
A
cacofonia dos sons noturnos da grande cidade distraia os transeuntes que
passavam pelas ruas madrugada afora. Mas um murmúrio chamou a atenção dele. Um
choramingo baixo, quase imperceptível. Se sentiu atraído pelo som como uma
mariposa pela cegante luz. Alguém devia estar chorando nas proximidades. O som
parecia ser feminino, frágil como uma porcelana . A parca luz proveniente dos
postes de iluminação não era tão propícia para a busca que o homem desejava
realizar. Procurou alguma forma feminina na rua escura, mas nada encontrava.
Até que avistou uma silhueta encurvada sentada num sujo paralelepípedo. Ela
chorava copiosamente. Suas lágrimas haviam feito a maquiagem em seu belo rosto
escorrer e marcar em traços pretos suas bochechas.
Conforme ele se ajoelhou a seu lado, a moça
estremeceu. Seu choro ficou mais intenso. Ele notou a roupa que ela vestia,
mesmo na fraca luminosidade. Suas vestes diziam que ela havia acabado de sair
de uma boate. Mas algo errado deve ter acontecido pois já passavam das 3 e ela
se encontrava sozinha numa rua escura e deserta. Ele se aproximou mais um pouco
e tentou falar com ela. Seu choro cessou por um instante enquanto levantava seu
rosto manchado para encarar o estranho. O medo espalhou pelo seus olhos, sua
boca vermelha e bem desenhada se abriu levemente. Ele tentou se desculpar e
ofereceu sua ajuda a qual ela recusou com o simples balançar de sua cabeça.
Seus cabelos dourados cortados na altura da nuca brilharam no momento que os
balançou. Ele olhou fascinado pela beleza da moça.
- Você está bem? Realmente não precisa de ajuda? –
Insistiu ele mais uma vez ao ver que ela negava mais uma vez.
Ela voltou a abaixar a cabeça e suas lágrimas
aumentaram. Ele estava perdido na confusão da moça. Não conseguia entender nada
do que estava acontecendo. Ele foi interrompido de suas divagações quando
percebeu que ela murmurava algo. Um nome repetidamente. Como num lamento aos
mortos as palavras saiam de sua boca. Ele tentou por mais de uma vez entender o
que ela dizia, mas o choro ininterrupto dificultava. Ele exalou profundamente
tentando manter a calma.
Ela suspirou e olhou para o rosto do homem agachado
a sua direita. Ela percebeu o ar de preocupação que exalava. Os olhos verdes a
encaravam intensamente. As sobrancelhas dele franziam conforme as perguntas
passavam por sua mente. Sua boca levantou-se um pouco num singelo sorriso encorajando-a
a falar.
- Alice se foi!- Ela disse sem fôlego. – Se foi e
jamais irá voltar...
Ele então largou a jaqueta de couro que segurava e
se atreveu a jogar um dos braços ao redor da indefesa mulher que balbuciava as
mesmas palavras que para ele eram sem sentido. Ele a manteve segura em seu
abraço espontâneo e simples e a sentiu relaxar um pouco.
- Moro no final dessa rua. Estava vindo da casa de
um amigo e se você deixar talvez possa te ajudar. Venha comigo e poderá se
aquecer um pouco e ligar para alguém vir busca-la. – ofereceu ele
Ela pensou um pouco. Na verdade, muito. Mas o medo
de estar na rua a noite era maior que ir até a casa desse estranho. Não era
confiável. Mas o que mais ela poderia fazer. Estava completamente desesperada e
perdida.
Ele a encaminhou até seu apartamento no fim da rua
principal. Abriu a porta do prédio como um perfeito cavalheiro e disse
baixinho:
- Por sinal, chamo-me Icaro.
Ela olhou naqueles esperançosos olhos verdes e nada
disse. Deixou-o a conduzir até o apartamento onde ele ofereceu algo para beber.
Ela negou a água com açúcar e pediu uma dose de vodka. Enquanto bebiam, ela
tentou contar parte de sua história para o seu salvador.
Ela era de uma cidade interiorana e acabara de se
mudar para a casa de uma amiga. Estava há apenas 2 meses em São Paulo e deparara-se
com uma realidade completamente diferente. Sentia-se num mundo diferente. Um
mundo que girava ao redor de festas, bebidas, sexo e drogas. Tentou esclarecer
que nunca havia sido uma usuária de drogas pesadas, apenas da maconha que
compartilhava com os amigos. Ela riu ao repetir a palavra. Esses eram seus
amigos na cidade grande. Estranho como em poucos meses podemos chamar as
pessoas erradas de amigos.
Enquanto ela contava ele fixava seus olhos nos
brilhantes olhos amarelos dela. Agora na luz ele percebia as íris rajadas de
verdes, uma perfeita coloração. Até que ele realizou que ela ainda estava com o
rosto manchado de sua maquiagem. Ele a interrompeu por apenas um momento
oferecendo um lenço de papel. Aproximou o lenço do rosto polido como o mais branco
marfim e carinhosamente limpou os resquícios da maquiagem borrada que escorrera
pelas bochechas. Os olhos de ambos se encontraram por um breve momento e o
tempo congelou. Faíscas surgiram do contato de sua pele no rosto delicado dela.
E como tivessem levado uma descarga elétrica se afastaram bruscamente e ela
retomou sua história.
Ela estudava publicidade e tinha apenas 20 anos, mas
sua vida mudou completamente ao participar ativamente das festas. Sua vida era
melhor agora dizia a amiga. “Agora você é uma mulher e vive em São Paulo,
aproveite a vida e tudo o que a cidade oferece” diziam seus amigos. Mais uma
vez riu, um riso amargo que Icaro percebeu. Sua voz era doce, mas trazia uma
profunda tristeza. Icaro a interrompeu mais uma vez:
- Quem é Alice? Ela morreu?
“Alice”, ela repetiu e de repente mais algumas
lágrimas rolaram por seu rosto perfeito. Alice era uma jovem decidida, forte e
que veio a São Paulo em busca de seus sonhos. Uma pessoa doce e bonita que
fazia de tudo pelos amigos e a família. Uma alma carente de amor, mas que sabia
amar a todos sem distinção. Ela não aguentou a pressão. Enlouqueceu, seus
sonhos foram destruídos e pisados como folhas secas. Sua auto estima arrasada.
Sua alma ficara em pedaços.
- Ela se foi! Nunca mais irá voltar! – ela sussurrou
entre lágrimas.
Icaro ficou um momento em silêncio tentando absorver
a história. Ele simplesmente não via uma ligação entre as duas. Seria Alice a
tal amiga com quem a bonita mulher a sua frente morava? Seria Alice uma outra
amiga? E quem seria essa misteriosa jovem que ele não parava de admirar?
Ela aceitou o silêncio dele, e aproveitou para
servir-se de outra dose de vodka. Ela não podia contar toda a verdade para ele,
ou podia? Ela encontrou mais uma vez aquelas esmeraldas e percebeu o quanto
atraída estava por aquele homem. Ele é bonito, de fato. Alto, mais ou menos com
1,90 e braços e abdome bem definidos por baixo da camisa justa azul clara. Ela
suspirou. Esse Icaro era lindo e mais que tudo gentil e doce com ela. A
aceitara num momento de fragilidade e não tentara nenhum avanço indecoroso. Ela
olhou para o rosto dele mais uma vez. Seu rosto era bem definido e sua barba
estava por fazer. Não podia ser mais lindo.
- Você está bem? – a voz rouca dele a tirou do
transe hipnótico causado por aqueles belos olhos.
- Não. Pois Alice não está comigo. Hoje percebi que
ela se foi realmente. A mataram. Eles acabaram com ela. – exclamava a jovem.
-
Como assim?!? Calma, respira fundo. Me ajude a entender tudo o que disse. Estou
aqui para te apoiar – ele se aproximou dela e a abraçou firmemente.
Ela desabou em seu abraço. Deixou o calor do corpo
dele confortá-la. Ele sussurrou coisas doces em seu ouvido. Ele estava lá para
apoiá-la. Icaro tentava protege-la de um mau qual desconhecia. Ela sentiu
quando ele acariciou a linha de sua mandíbula com um dedo. O toque era mágico,
prometia curas, amor e proteção. Tudo que ela mais desejava. Ele levantou
levemente o pescoço dela e tocou os lábios com os seus. O beijo foi suave, mas
o desejo por trás era inegável. Em pouco tempo ambos estariam entregues a uma
paixão arrebatadora.
- Você não me disse seu nome... – ele disse ao
retomar fôlego após o beijo.
- Eu não sabia quem eu era naquela hora. Mas pode me
chamar de Alice.
Autora:
Juliana M.
P.S. Imagens do We <3 It
É
isso queridos... Tenham um Feliz Dia dos Namorados!!! Não deixem de dizer o que
acharam do conto!! =D























